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Jean-Yves Mollier é pesquisador do Centre d´Histoire Culturelle des Sociétés Contemporaines, da Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, do qual também foi diretor, dialogando mundialmente com outros pesquisadores de grande porte com interesse na temática do mercado editorial e o universo do livro e da leitura, como Chartier e Darnton. Sua proximidade com o Brasil também é notória, mantendo interlocução com diversos pesquisadores nacionais, como Aníbal Machado, Márcia Abreu, Tânia Bessone, Plínio Martins Filho, entre outros.

Publicado na França pela primeira vez em 1988, O dinheiro e as letras: História do Capitalismo Editorial, segundo o autor, foi uma tentativa de obrigar os pesquisadores a um retorno aos fundamentos da historiografia, em lição passada por Lucien Febvre em 1958 e tomada em seguida por Henri-Jean Martin, de que o livro se define por duas tensões aparentemente opostas, como se fosse dotado de um corpo e uma alma. Ele explica:

Diante de uma tendência muito presente ente os literários, mas também entre os historiadores de supervalorizar o segundo aspecto

[alma], era necessário lembrar que o livro se insere nos circuitos da produção mercantil, que ele obedece a lógicas de tipo econômico e, claro, financeiro e que, enfim, não se pode compreender intimamente um certo número de realidades culturais sem este pano de fundo.[1]

Estas “tensões aparentemente opostas”, estão relacionadas ao que o autor chama de “ambivalência que marca profundamente a profissão do editor” em seu artigo O dinheiro e as letras, um comércio delicado, a qual ele atribui a ideia de escrever o livro em questão.

Incialmente tencionando direcionar sua pesquisa voltada somente aos séculos XIX e XX, ele diz ter tomado a decisão de parar nos anos 20 e retroceder até o século XVIII, período ao qual ele atribui o verdadeiro nascimento da edição moderna na Europa, ocupando-se mais tarde, em outra publicação[2], dos modelos de edição do século XX tardio. Assim, O dinheiro e as letras ficou dividido em três grandes partes, subdivididas em capítulos específicos.

Em um primeiro momento, Mollier se propõem a analisar o surgimento das grandes casas editoriais, no momento de transição dos impressores-livreiros aos editores de fato. Na primeira parte, “Impressões e patrões da imprensa, os herdeiros e os recém-chegados”, em uma espécie de gênesis bíblica das publicações, o autor expõe exaustivamente o nome dos impressores e suas relações familiares, associações entre família, casamento de interesse, bem como apresenta dados minuciosos de valores monetários dos negócios e de suas heranças. Sem dúvida um trabalho histórico de reconstrução de muito valor, mas que pode ser maçante a um leitor desavisado.

Entre os protagonistas, são analisados os clãs de Panckoucke, Dalloz, Mame, bem como os impressores Firmin Didot, Plon, Dupont e, não menos importante a Société Anonyme des Librairies Imprimieres Reúnis.

É importante ressaltar que não somente aspectos das edições são tratados, mas também, principalmente, as relações capitalistas e políticas que as cercam. Por exemplo, o envolvimento dos “editores/impressores” com bancos, homens de negócios, escândalos econômicos internacionais, etc.  Os negócios editoriais destas figuras, frequentemente, acabavam representando apenas uma pequena parcela dos bens que de fato passariam a possuir.

A segunda parte do livro, é dedicada ao “Editores e livreiros”, especialmente àqueles grandes editores franceses surgidos no século XIX, como Hachette, Larousse, Charpentier, Fasquelle, Flammarion, Garnier, entre outros.

Para conseguir um recorte histórico viável, o autor opta por manter seu “critério de capacidade de resistências dessas firmas”, privilegiando a observação daquelas que continuaram a se desenvolver, ao mesmo tempo que nos esforçamos por assinalar os movimentos de compra e venda que elas efetuaram de um século ao outro.

Analisando episodicamente tais ações de compra e venda, observamos uma preocupação ainda maior em tentar reconstituir a vida pessoal dos fundadores das grandes casas editoriais, como se minibiografias perpassassem toda obra. Há não só relatos de detalhes da vida cotidiana — família, educação, formação intelectual, experiência profissional anterior, amizades — mas também uma tentativa de compreender o perfil psicológico destes distintos personagens, evidentemente bem embasada com um panorama das condições políticas e econômicas de seu tempo. Neste ponto, encontramos uma das grandes contribuições da obra, que é a conclusão de que as forças do elemento conjuntural que atuam sobre o destino dos editores nos obriga a jamais perder de vista o caráter contingente de sua história.

Aqui também observamos a preponderância de um importante destaque econômico de mercado — e que transformaria radicalmente a leitura —, desta vez, direcionado às novas técnicas de produção que permitiram o barateamento e, por consequência, a verdadeira popularização do livro, a qual o autor chama de “Revolução Charpentier”, mas que repercute em todos os setores da “indústria livreira”. Partindo do preço médio de um livro de 15 francos (cerca de 70 euros) em 1838, com a introdução de um novo formato de livro por Charpentier, esse preço se vê reduzido para 3,50 francos (13,50 euros). Em 1846, Michel Lévy reduz o preço do livro para 2 francos (9 euros). Já em 1853, o preço cai para 1 franco (4,50 euros) graças a Loius Hachette e sua coleção “Bibliothèques des chemins de fer”. Em 15 anos temos uma redução de quase 1500% do custo do livro. Tal revolução não se limitou ao preço do livro, mas açambarcou também as tiragens, que se viram aumentadas de 800 para 6.600 exemplares, fazendo crescer o número de leitores exponencialmente.

Nesta parte, Mollier observa ainda a expansão dos editores franceses em busca de novos territórios, como o caso dos irmãos Garnier, especializados no domínio da “livraria espanhola e portuguesa”, tendo se tornado os editores mais ricos da França no início do século XX. Não obstante a exploração de novos mercados, a estratégia de tomar para si temas desprezados por outros editores, mas muito populares entre leitores — literatura pornográfica, por exemplo —, contribuiu para o enorme sucesso da casa editorial dos irmãos.

Ainda da segunda parte do livro, o autor apresenta como as editoras criam novos temas e introduzem novos assuntos no mercado, aumentando ainda mais seu poder. É o caso das edições científicas, que começam a ser publicadas sistematicamente a partir do século XIX, direcionada a um público cada vez maior e com necessidade de formação sólida das ciências. Embora já houvessem publicações científicas na ocasião, raramente elas circulavam fora dos ambientes dos pares, fato que foi rompido após a popularização de sua edição.

De forma similar, os livros sobre política também adquiriram muito espaço. Tal como os livros com textos de peças teatrais e musicais, para os quais um capítulo inteiro é dedicado.

Finalmente, a terceira parte “A empresa e suas engrenagens, os homens e seus desejos”, Mollier a dedica inteiramente a tratar de temas relacionados à editora Calmann-Lévy, direcionando seus estudos para a vida da sociedade, a organização interna, os diferentes departamentos e os homens que se empenharam em fazer dessa editora literária a primeira firma francesa pela qualidade de seu catálogo.

Apesar de focar nos temas anteriormente descritos, o autor segue a coerência da obra e não economiza na apresentação de dados de valores, árvores genealógicas, relações familiares e traços psicológicos de seus personagens, enriquecendo seu viés histórico-documental.

Antes de encerrar o livro, é dedicado um generoso capítulo àqueles que seriam os novos concorrentes da casa editorial Calmann-Lévy, nomeadamente Vallette, Grasset e Gallimard, além das antigas editoras já existentes.

Sobre a edição brasileira propriamente dita, publicada pela editora UNESP em 2010, após um longa atualização a partir de 2008 — 20 anos após sua publicação original na França —, observamos um produto bem cuidado, ricamente dotado de fontes, bibliografia e índice onomástico. Lamentamos que a edição não conte com o já citado prefácio/artigo escrito pelo autor para obra, intitulado O dinheiro e as letras, um comércio delicado, mas felizmente publicado na Revista Escritos, da Fundação Casa de Rui Barbosa[3]. O projeto gráfico é de excelente qualidade e permite uma boa leitura do livro, apesar de sua larga extensão, que o torna pesado para transportar, permitindo apenas uma leitura sobre um apoio. Quanto ao preço… bem, ainda não tivemos por aqui a nossa “Revolução Charpentier”…

Leandro Müller[4]

 

[1] Entrevista concedida à Marisa M. Deaecto, em 01/04/2014. Acessado em 21/01/2016. Disponível em: http://bibliomania-divercidades.blogspot.com.br/2014/04/entrevista-com-jean-yves-mollier.html

[2] MOLLIER, Y.J. Edition, presse et pouvoir em France au XXe siècle. Paris: Fayard, 2008.

[3] MOLLIER, J.-Y. O dinheiro e as letras, um comércio delicado. Ano 5, nº5. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2011. Acessado em 10/01/2016. Disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/escritos/numero05/artigo02.php

[4] Coordenador do NESPE e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. leandrolima@gmail.com