Resenha “New business models in the digital age”

Comunicação e novas tecnologias têm sido objeto de estudo e da carreira profissional do professor espanhol Javier Celaya nos últimos vinte anos. Em março de 2004, fundou o Dosdoce.com, especializado em detectar e analisar tendências do mundo digital. O portal já produziu mais de 35 estudos, desde “O papel da comunicação na promoção do livro” até “Global e-book”, que pesquisou os avanços mercado do livro online na Europa, nos BRICs e no mundo árabe. Dosdoce.com é o local onde são postados artigos do CEDRO (Centro Espanhol de Direitos Reprográficos), que no final de 2014 patrocinou esse “New business models…” para o lançamento da plataforma Conlicencia.com, que permite o acesso a mais de seis milhões de obras espanholas.

O estudo “New business models in the digital age”, também disponível em espanhol com o título “Evolución de los nuevos modelos de negocio en la era digital”, pode ser baixado gratuitamente pelo site da dosdoce.com em http://www.dosdoce.com/2015/11/11/evolucion-de-los-nuevos-modelos-de-negocio-en-la-era-digital nos formatos PDF, e-Pub (Apple, Android, Google Play, etc.) e Mobi (Amazon).

A proposta de “New business models in the digital age” é arrojada: analisar o mercado digital em vários setores da Cultura (jogos, música, livros). O risco de se cometer alguma imprecisão ou de defender um modelo que desapareça em breve – nunca é demais lembrar que o Orkut foi lançado em janeiro de 2004

[1], fez grande sucesso, mas hoje jaz no espaço cibernético – não amedrontou o grupo de pesquisadores, que traçou um panorama das oportunidades de negócios num livro de leitura rápida, com muitos dados atualizados, estatísticas e análises de mercado.

Na Introdução, o autor já prenuncia que as empresas no setor cultural passarão inexoravelmente por um “processo de transformação estrutural” (p. 3) no mundo digital. O objetivo do livro, ele pontua, é “prover profissionais do mercado editorial – editores, agentes, autores, vendedores ou bibliotecários – com uma ampla análise dos modelos de negócios atualmente disponíveis na Internet” (p.3). A narrativa do livro acredita que a história dos novos negócios na arena digital tenha sido impulsionada pelos games; uma segunda onda de business contemplou a música (iTunes, Spotify etc.); posteriormente os filmes (Netflix). O mundo editorial não pode perder a oportunidade agora.

Dividido em três capítulos, a publicação começa elencando os tipos de negócios digitais, boa parte deles pouco explorados no mercado editorial brasileiro: micropagamento, acesso livre, pay-per-use, cursos online para muitos alunos (massive online open course, o “MOOC”).  O segundo capítulo dialoga com o anterior, mantendo a estrutura de apresentar modelos de negócio: bundling, gamification, pay-what-you-want, Library eLending. São muitas as ferramentas digitais que o livro apresenta. Tem o ValoBox, iniciativa digital em que se paga pela quantidade de páginas que se lê online; o CEO da Safari Books Online, primeiro aplicativo de assinatura de livros no mundo, acredita que “o modelo de assinatura para e-books é apropriado para pequenos nichos” (p. 22); e há o caso de plataformas como o Scholastic (com um acervo de mais de dois mil livros), que permitem que estudantes tenham acesso ao mesmo tempo ao conteúdo de um livro, sem precisar esperar que os colegas de turma terminem a leitura para disponibilizá-lo.

O leitor – profissional ou não do mercado editorial – é confrontado com vários exemplos de sucesso. O micropagamento (pagamento por uma pequena atualização ou conteúdo), por exemplo: na Espanha, gastou-se em média 2,80 euros/ano por pessoa em 2012 (12% a mais que o ano anterior). Existe aplicabilidade no Brasil? Outro exemplo vem do Japão, onde cresce o interesse nos conteúdos a ser lidos na tela dos celulares em dois minutos (tempo médio de espera na estação do metrô). Será que aqui, num país em que se perde tanto tempo no trânsito, esses autênticos e-hai kais vingariam?

O terceiro capítulo é onde aparece de forma mais intensa a reflexão sobre as possibilidades futuras das empresas. Celaya acredita na convivência cordial entre os mundos analógico e digital: “a chegada do e-commerce e da digitalização, catapultada pelo uso de celulares, não significa o fim das livrarias físicas, que podem ser base para a descoberta, compra e leitura faseada por parte dos clientes, independente de eles optarem pela versão impressa ou digital dos livros” (p. 62).

O autor toma cuidado para não ser otimista em excesso. Afinal, na virada do século a Internet era encarada com entusiasmo. Castells (2001) considerava a grande rede “o tecido de nossas vidas (…) Assim como a difusão da máquina impressora  no Ocidente criou o que Mac Luhan chamou de ‘Galáxia de Gutemberg’, ingressamos agora num novo mundo de comunicação: a Galáxia da Internet” (p. 7-8). Mas, como lembra o sociólogo na mesma publicação, “Em 2001, nenhuma dessas formas de convergência estava sendo praticada em larga escala e nenhuma delas estava dando dinheiro” (p. 157). Para Javier Celaya, a explosão da Bolha da Internet[2] tem explicação: enormes quantidades de conteúdo eram disponibilizados gratuitamente. O grande desafio hoje é “encorajar compradores a adquirir exatamente o que se quer, quando se quiser, e a um preço razoável” (p. 65). Um mercado mais maduro e responsável. E que apresenta opções de compra de pequeno conteúdo, que pode servir como degustação ou mesmo como exatamente o tamanho de conteúdo que se quer.

Ainda assim, os autores são resolutos quanto ao futuro da economia digital: “para fazerem sucesso na nova economia, as empresas precisam fazer a transição e se tornar mais digitais” (p. 59). Ou seja: atualizar as ferramentas digitais (website e e-commerce) e migrar também para o mundo do celular.

Ao final de sua argumentação, o texto apresenta um tema importante na economia digital: o novo perfil do consumidor, a quem chama de “prosumidor”, um mix entre produtor e consumidor. Celaya adverte que é crescente o interesse por publicar os próprios trabalhos a partir de “self-publishing platforms”. Um dos principais websites nessa linha é o SocialBooks (atualmente renomeado para BookShout!) , da editora HarperCollins. Ele aproxima e-books, mídias sociais e conteúdo próprio para criar uma nova experiência de leitura, com compartilhamento de vídeos, fotos, comentários sobre o texto e conexão direta com o autor. Vários editores, inclusive, trabalham nesta direção: o “prosumidor” não compra simplesmente livros, mas compra, debate, comenta, recomenda e dá sugestões ao mercado editorial. De olho nesse nicho, a gigante Penguin Books lançou o First Read, em que convida leitores selecionados para darem parecer sobre obras ainda não lançadas. Para encontrar esse perfil, o programa cria um sistema de pontuação para quem participa de debates, leituras e comentários. Este tipo de usuário do meio digital é, na definição de Aldé (2011), “os trenders, ao mesmo tempo seguidores e alimentadores de tendências”.

“New business…” faz alusão a um artigo do ano passado do New York Times[3] que apresenta várias iniciativas para lançamentos de livros próprias da era digital: participação de fãs para votarem trechos a serem alterados; patrocínio coletivo (crowdsourcing) para selecionar títulos a serem impressos; votação em audiobook para quem recebeu versões digitais em áudio; base de fãs antes de um livro ser publicado (ou até mesmo escrito). Uma frase de Celaya (na página 67) talvez sintetize o livro: “Se há algo que caracteriza a nova economia digital, é que os negócios não podem ter um simples foco”.

 

Flávio Nehrer

Mestrando de Comunicação Social na Universidade do Rio de Janeiro (UERJ)

Referência

CELAYA, Javier et alii. New business models in the digital age. Madri: CEDRO (Centro Español de Derechos Reprográficos), 2014. 74p. (acessível em dosdoce.com, nas versões em Espanhol e Inglês)

 

Notas

[1] Segundo https://orkut.google.com/, pesquisa realizada em 6 de maio de 2015

[2] A bolha da Internet ou bolha das empresas ponto com foi uma bolha especulativa criada no final da década de 1990, caracterizada por uma forte alta das ações das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) baseadas na Internet, disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Bolha_da_Internet, acesso em 7/5/2015

[3] http://www.nytimes.com/2014/08/12/business/media/publishers-turn-to-the-crowd-to-find-the-next-best-seller.html?_r=0

By | 2017-08-06T17:05:55+00:00 01/03/2016|Resenhas|0 Comentários

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